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Crise sanitária atinge Ypê, a 2ª maior empresa do setor de limpeza no Brasil, em meio a expansão






Detergentes Ypê


A determinação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de retirar lotes de detergentes, lava-roupas e desinfetantes da Ypê do mercado atinge a Química Amparo, fabricante da marca, em um dos momentos de maior expansão da companhia.

Dona de um faturamento anual da ordem de R$ 10 bilhões, é a segunda maior empresa do setor de limpeza doméstica no Brasil, depois da Unilever, dona de marcas como Omo e Comfort.

A companhia detém mais da metade do mercado de detergentes, que soma R$ 3,6 bilhões no Brasil, segundo a consultoria Euromonitor. Em sabão, vem no encalço da líder Omo, que vê o consumidor migrar para marcas mais em conta no setor de limpeza, o que favorece a Tixan Ypê, em média 20% mais barata.

Na noite de sexta (8), a Ypê divulgou nota afirmando que entrou com recurso e conseguiu derrubar temporariamente a proibição da Anvisa para produzir e vender os produtos. O recurso administrativo tem efeito até o julgamento do caso pela diretoria colegiada da Anvisa, o que deve ocorrer nos próximos dias.

Mesmo com o efeito suspensivo do recurso da Ypê, a Anvisa afirmou que mantém sua primeira avaliação técnica de risco sanitário e continua recomendando que consumidores não usem os produtos afetados.

A agência acrescentou que é de responsabilidade da empresa "orientar cidadãs e cidadãos, por meio do seu SAC, sobre procedimentos de recolhimento, troca, devolução, ressarcimento ou outras providências cabíveis".

A Química Amparo não atendeu a reportagem para explicar qual pode ter sido a origem do problema e quais providências estão sendo tomadas.

O recolhimento dos produtos ocorreu porque, segundo a agência, inspeções identificaram descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, incluindo falhas na garantia da qualidade, produção e controle de qualidade na fábrica da empresa em Amparo (SP).

A Anvisa afirmou em sua decisão que isso pode gerar risco de contaminação microbiológica dos produtos, podendo causar doenças ou irritações.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, a crise de imagem pode ser contornada se a empresa for rápida e eficiente na implantação de um SAC exclusivo para tirar dúvidas e vir a público assumir seu erro, demonstrando que tomou providências urgentes.

No entanto, até o início da noite desta sexta, as ligações ou não eram completadas ou não eram atendidas. Nas redes sociais, consumidores relatavam dificuldade de contato com a empresa e mencionavam irritações nas mãos após o uso dos produtos.

FALHA DA EMPRESA É RECORRENTE E DETERMINOU RECOLHIMENTO

Esta não foi a primeira falha no controle de produção da Química Amparo: no final de 2025, a Anvisa determinou o recolhimento lotes de lava-roupas líquidos devido à contaminação pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. Na ocasião, a fabricante disse que o recolhimento era uma medida preventiva e cautelar, aplicada a 14 lotes de lava-roupas.

Na opinião de Marcos Bedendo, professor de branding da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), quanto mais popular é a marca, maior é a sua responsabilidade diante dos consumidores.

"Uma ocorrência como esta junto à Ypê, presente em 95% dos lares no país, gera no público um sentimento de traição", diz Bedendo. "A forma como a empresa vai reagir será determinante para os consumidores intepretem como um erro passageiro ou uma crise que compromete a confiança", diz ele, que acredita que a fabricante deveria destacar um porta-voz para tratar o assunto.

Controlada pela família Beira, com capital fechado e sede em Amparo, a 129 km de São Paulo, a empresa se tornou uma concorrente de peso para a gigante Unilever, dona também do limpador e desinfetante Cif.

É a única grande fabricante brasileira concorrendo em um mercado dominado por multinacionais —além de Unilever, P&G (dona de Ariel, Downy, Ace) e Reckitt (Veja, Vanish). As outras brasileiras neste mercado de limpeza doméstica —Flora (dona de Minuano), Bombril (Limpol) e Limppano (ODD)— são bem menores.

Com foco nas classes B e C, a Química Amparo vem atendendo o consumidor que migra para marcas mais baratas de produtos de higiene e limpeza, a fim de direcionar recursos para produtos premium em outras categorias, como alimentos e bebidas, por exemplo.

"Muitas marcas regionais e mais em conta vêm ganhando espaço neste mercado, o que contribui, inclusive, para a mudança de consumo do brasileiro, que vem trocando cada vez mais o sabão em pó por sabão líquido", diz Felipe Carreirão, consultor sênior da Euromonitor.

Tradicionalmente reservada, a família Beira abriu o voto nas últimas eleições presidenciais, com apoio à reeleição de Jair Bolsonaro (PL). A iniciativa deixou sequelas: a marca Ypê sofreu boicote de parte dos consumidores.

Segundo fontes da companhia, ouvidas também em condição de anonimato, a empresa aprendeu a lição e decidiu se manter à parte do mundo político em 2026.

CONTROLE DE BACTÉRIAS DEVE ENVOLVER USO DE LUZ ULTRAVIOLETA

Para o executivo de uma indústria de limpeza ouvido pela reportagem em condição de anonimato, a contaminação pode ter ocorrido por meio da água usada na fabricação —do rio ou de poço. As duas formas de captação são usadas pela Química Amparo.

A fábrica da sede, aliás, fica ao lado do rio Camanducaia. Caso a hipótese se confirme, a investigação sobre a origem exata da contaminação tende a ser demorada e complexa, pois há múltiplos pontos no processo produtivo onde falhas podem ocorrer, disse.

A água pode servir como meio de proliferação de bactérias, exigindo tratamento rigoroso antes do uso industrial. A captação de água de rios representa um risco maior de contaminação em relação aos poços artesianos ou água tratada da rede pública porque a qualidade da água pode variar de forma imprevisível e sem controle por parte da empresa. Neste caso, é preciso um tratamento de desmineralização, que remove minerais que possam reagir com os componentes da fórmula e limitar a sua eficácia.

Já o tratamento por luz ultravioleta (UV) é considerado 99,99% eficaz na eliminação de bactérias, pois destrói a estrutura celular dos microrganismos. No entanto, é um processo caro: os equipamentos custam cerca de R$ 4 milhões. Se a empresa não tem o recurso, deve enviar amostras do produto final para laboratórios externos e só liberar os lotes para venda após a confirmação de que não há contaminação.

Mesmo após o tratamento da água, a contaminação pode ocorrer durante o transporte até os tanques de produção, caso as tubulações estejam sujas, as bombas com manutenção inadequada ou vedações falhas que permitam contato com o ar externo.

Além disso, bactérias podem ser introduzidas nos tanques de produção se não houver controle de qualidade rigoroso das matérias-primas. A falta de limpeza adequada dos tanques entre uma produção e outra (feita por equipamentos chamados "spray ball") também pode gerar acúmulo de resíduos e favorecer a proliferação de bactérias.
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