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Vorcaro cita ex-esposa de Toffoli e ordem de R$ 20 milhões para resort ligado ao ministro



 

DO SITE 247 –
 Um relatório da Polícia Federal (PF) com diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, passou a detalhar menções a um aporte de R$ 20 milhões em um resort no Paraná associado, segundo os investigadores, a uma estrutura empresarial na qual o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli tinha participação societária. O mesmo material cita nominalmente Roberta Rangel, ex-esposa do ministro, em conversas do banqueiro com interlocutores.


As informações foram publicadas pelo jornal Estado de S. Paulo, com base no relatório entregue nesta semana pela PF à Presidência do STF e encaminhado ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O documento, segundo a própria PF, tem caráter descritivo: reúne diálogos e os contextualiza com dados de fontes abertas, sem configurar, neste estágio, um aprofundamento investigativo sobre o ministro.



O que a PF diz ter encontrado no celular de Vorcaro

De acordo com o relatório, as conversas obtidas pela PF mencionam uma ordem de pagamento de R$ 20 milhões para um resort da rede Tayayá, no Paraná. Em trechos de mensagens entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, o banqueiro orienta que seja feito um aporte no empreendimento. A cifra aparece na conversa, mas, conforme o relatório, a PF ainda não realizou diligências para verificar se o valor foi efetivamente pago.

Os investigadores também registraram que, nas conversas, há menções que indicariam conhecimento, por parte dos interlocutores, de que o empreendimento tinha Toffoli como um dos sócios. O relatório ainda descreve a existência de trocas de mensagens e ligações telefônicas registradas entre Vorcaro e o ministro, incluindo marcação de encontros sociais — sem detalhar o conteúdo dessas ligações.

A menção à ex-esposa do ministro e a hipótese levantada pelos investigadores

O relatório aponta que Vorcaro cita o nome de Roberta Rangel em diálogos com outros interlocutores. Com base nessas conversas, a PF afirma haver indícios de que a advogada teria atuado juridicamente para o Banco Master quando ainda era casada com Toffoli — eles se separaram no ano passado, segundo o texto.

Ao mesmo tempo, o próprio relatório ressalta limites: como esta fase da apuração não envolveu aprofundamento das informações encontradas, não foi identificado se houve contrato firmado diretamente entre Roberta Rangel e o banco. Procurada, ela não se manifestou, ainda segundo o relato publicado.
Toffoli reage, deixa a relatoria e o caso é redistribuído

Após a entrega do relatório, o STF foi atravessado por uma crise institucional e conduziu discussões internas. O texto informa que houve uma reunião dos dez ministros do STF na noite de quinta-feira, 12, e que, depois dela, Toffoli aceitou deixar a relatoria do caso Master. O processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.

Em nota divulgada por meio da assessoria do STF, Toffoli afirmou que “não é administrador nem gestor da Maridt” e que “sempre se declarou impedido de julgar causas” em que sua ex-esposa atuava. Antes, ele classificou as informações do relatório policial como “ilações”, negou ter relação de amizade com Vorcaro e disse que não recebeu pagamentos do banqueiro — embora tenha confirmado ser sócio da empresa.


Segundo o texto, os ministros também decidiram extinguir o processo aberto a partir do relatório da PF que analisava uma eventual suspeição de Toffoli no caso. Já a defesa de Vorcaro não havia se manifestado até a publicação mencionada.
Resorts, Maridt e a engrenagem empresarial no Paraná

O relatório cita que o próprio Toffoli admitiu publicamente ser sócio da empresa Maridt, apontada como participante do resort Tayayá, e disse ter recebido dividendos, sem apresentar detalhes. Oficialmente, diz o texto, a Maridt é dirigida por dois irmãos do ministro e tinha participação em dois resorts da rede Tayayá.

O material também registra que parte dessa participação teria sido vendida a um fundo de Zettel, cunhado de Vorcaro. A PF ainda não apontou, neste estágio descrito, se recursos relacionados ao aporte mencionado na conversa foram parar em conta do ministro — e afirma que não houve diligências para aferir pagamentos.
Implicações institucionais e o risco de normalizar conflitos de interesse

O episódio expõe, mais uma vez, como relações entre agentes do sistema financeiro e integrantes do topo do Judiciário podem produzir um ambiente de sombra institucional, no qual suspeitas se acumulam sem resposta imediata — alimentando descrença pública e abrindo espaço para disputas de bastidores. Mesmo quando o relatório é descrito como “descritivo”, o simples fato de mencionar aportes milionários, encontros sociais e possíveis conexões profissionais envolvendo familiares de ministro do STF já impõe ao Estado o dever de transparência e de apuração com rigor.


Agora, a expectativa recai sobre a análise do procurador-geral Paulo Gonet, que ainda não havia definido providências a partir do relatório, conforme o texto. O desfecho tende a ter impacto não apenas sobre o caso Master, mas também sobre a credibilidade do próprio sistema de freios e contrapesos: quando suspeitas são tratadas como ruído político, o país corre o risco de normalizar o que deveria ser exceção — e, quando são usadas seletivamente como arma, o Brasil revive métodos de desgaste institucional que já alimentaram práticas de lawfare em outros ciclos.

Com o processo redistribuído a André Mendonça e a crise formalmente contida no STF, permanece a questão central: se há elementos que exigem investigação aprofundada, eles precisam ser enfrentados com fatos, diligências e garantias legais — não com atalhos regimentais, versões interessadas ou espetacularização.

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