Foto: Reprodução/ Diocese de São João Del ReiNeste dia 12 de outubro, é comemorado o Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a Padroeira do Brasil. Para celebrar a data especial, o bahia.ba conversou com o padre Cleriston Mendes, pároco do Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Salvador, que nos contou mais sobre a história da santa, a importância da data e a devoção dos fiéis.
A Nossa Senhora da Conceição Aparecida é uma das invocações de Maria, mãe de Jesus Cristo. O título, sempre evocado na Ladainha Lauretana (uma prece dirigida à Virgem Maria), faz relação com o dogma da Imaculada Conceição, que afirma que ela foi concebida sem a mancha do pecado original.
A Igreja Católica ensina que, desde o primeiro instante de sua existência, foi preservada do pecado pela graça de Deus, preparando-a para ser a Mãe do Salvador. Este dogma foi proclamado pelo Papa Pio IX em 1854, na bula Ineffabilis Deus.
Primeira aparição
Em 12 de outubro de 1717, três pescadores – Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso – lançaram suas redes no rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá (SP), conforme havia sido festejado no vilarejo para receber o então governador do Brasil, o Conde de Assumar. Após uma reza pedindo bons resultados, puxaram a rede e encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, feita em terracota escura.
Na mesma pescaria, recolheram tantos peixes que o barco quase afundou. Esse episódio milagroso despertou grande comoção local. A imagem foi guardada em um oratório improvisado em Porto Itaguaçu (nome que significa “pedra grande”, em tupi-guarani), e logo os moradores passaram a venerá-la como a “Nossa Senhora Aparecida” do rio Paraíba.
“Quando juntaram o corpo com a cabeça, naquela imagem escurecida, ela adquiriu o nome naquele vilarejo porque havia ‘aparecido’ naquele local. Por isso ficou conhecida como Nossa Senhora da Conceição Aparecida”, explicou padre Cleriston.
“É uma Nossa Senhora só, a Mãe de Jesus, mas, dependendo do lugar onde ela aparece, ela recebe o nome ou o título daquele local, como Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Guadalupe e, aqui no Brasil, Nossa Senhora Aparecida”, esclareceu o pároco.
Após encontrarem a imagem, foi feita uma capelinha, onde foi colocada, e logo o povo começou a demonstrar sua devoção a Nossa Senhora. “Com o tempo, começaram a surgir alguns milagres — os primeiros atribuídos a ela — e foi ficando famosa pelos prodígios que aconteciam naquele vilarejo. Logo começaram muitas peregrinações ao local da imagem”, acrescenta.
Além do milagre da própria pescaria, outros relatos pioneiros fortaleceram a devoção. Logo no pequeno oratório de Itaguaçu houve o chamado “milagre das velas”: velas diante da imagem apagavam-se repentinamente e voltavam a acender sozinhas, sem vento, nem explicação.
O padre Francisco da Silveira foi um missionário jesuíta que, em 1748, registrou um dos primeiros relatos históricos sobre a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Em sua crônica, ele descreveu a imagem como “moldada em argila e de cor escura, famosa pelos muitos milagres realizados”, mencionando que já atraía devotos de regiões distantes.
Nos anos seguintes, surgiram relatos de curas e libertações atribuídas à intercessão da Padroeira, popularizando seu culto entre devotos de diversas origens.
Chegada da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio de Janeiro em 1931
Chegada da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio de Janeiro em 1931Foto: Acervo CDM
Nascimento da Padroeira do Brasil
A devoção popular conduziu ao reconhecimento oficial de Aparecida como padroeira do país. Em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI assinou o decreto que proclamava “Rainha do Brasil e Padroeira Principal” a Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, reunindo cerca de um milhão de pessoas.
Na cerimônia participaram o então presidente Getúlio Vargas, bispos, diplomatas, e a imagem original foi trazida de Aparecida para a capital por Dom Sebastião Leme. Finalmente, em 30 de junho de 1980, a Lei Federal nº 6.802 tornou feriado nacional o dia 12 de outubro (Dia de Nossa Senhora Aparecida) e a declarou em lei oficialmente como Padroeira do Brasil.
“O dia 12 de outubro foi escolhido como feriado porque foi o dia em que os pescadores encontraram a imagem no Rio Paraíba. Muita gente acha que foi por causa do Dia das Crianças, mas não foi”, desmistifica o padre.
Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceição Aparecida em Salvador
Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceição Aparecida em SalvadorFoto: Reprodução/ Redes sociais
Relação de devoção dos fiéis
Para o pároco do santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida, à frente há seis anos, é de grande importância para sua trajetória de fé ver a relação dos fiéis com a santa. “Eu vejo a realidade de muitas pessoas que vêm agradecer. Primeiro, vêm pedir milagres, mas também vêm expressar gratidão por terem recebido graças”.
“A gente percebe a devoção e o carinho que as pessoas têm por Nossa Senhora, principalmente nesse período festivo, quando muitas pessoas vêm de vários lugares, não só aqui do bairro (Imbuí), porque aqui é uma paróquia, que tem essa característica territorial. Mas o santuário é diferente. É um lugar santo, onde acontece muitas peregrinações e pessoas de várias partes chegam para ter esse encontro com a imagem e agradecer as bênçãos recebidas”, expressou o padre.
Para o líder religioso, celebrar e estar à frente do local é uma “alegria muito grande”. “Cada peregrino e cada pessoa que chega aqui traz uma história, uma fé, uma espiritualidade muito devocional, pedindo a intercessão de Nossa Senhora para sua vida e sua família”, relata.
Maria aponta para seu filho Jesus
O padre ressalta a importância de lembrar que Nossa Senhora não pode fazer nada por si só. Segundo o pároco, na Sagrada Escritura vemos que ela sempre segue e aponta para o seu filho Jesus Cristo.
“Desde quando recebeu o chamado de Deus para ser a Mãe de Jesus, e também ao longo de toda a sua vida — no primeiro milagre de Jesus, nas bodas de Caná, quando intercedeu ao faltar o vinho; no seguimento a Jesus, na caminhada até o alto da cruz, onde ela estava presente; e também no Pentecostes, no início da Igreja, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos”, destacou.
“Tudo isso mostra que Nossa Senhora sempre esteve seguindo Jesus. E é isso que ela quer de nós, que sigamos o seu Filho, para que tenhamos um mundo melhor, de amor, paz e fraternidade. Ela é modelo de mulher obediente, que procurou fazer a vontade de Deus. E é assim que ela nos pede também, que sigamos os caminhos do Senhor”, salienta padre Cleriston.
Escultura de Pietá, de Michelangelo
Escultura de Pietá, de MichelangeloFoto: Reprodução/ Redes sociais
Programação do Santuário para celebrar a data
Neste domingo, a programação no Santuário começa às cinco horas da manhã, com a alvorada, uma queima de fogos tradicional. Às 5h30, acontece o Ofício de Nossa Senhora. Às 6h30, ocorre a primeira missa, conhecida como Missa das Redes. “Uma celebração famosa aqui, porque no final dela uma rede é passada sobre a cabeça de todo mundo”, explicou.
Às 9h30, acontece a segunda missa; ao meio-dia, a Missa das Crianças; e às 15h, a procissão ao redor da praça. Depois da procissão, às 18h, haverá a Missa Campal de encerramento, celebrada pelo cardeal de Salvador, Dom Sérgio da Rocha.